Mulheres em Portugal na década de 1950

Mar 08, 2023 | min read
By

Tania Marques


Portugal, década de 1950,

No meio do que veio a ser a ditadura mais longa da Europa (41 anos), e enquanto muitos países se adaptavam à nova década sentindo ainda o impacto do fim da Segunda Guerra Mundial anos antes, Portugal não! Desde 1933 tudo se mantinha da mesma maneira. O quadro ideológico do período fascista de Portugal ainda apresentava as mulheres como as únicas a cuidar da família, dos filhos e dos afazeres domésticos como cozinhar, lavar e limpar. O ditador António Salazar continuava a vender a ideia de que manter uma mulher em casa era na verdade para a sua libertação e que nenhum dinheiro poderia substituir este trabalho.

Como muitas mulheres em Portugal, a história que vou contar aqui é de uma mulher que reagiu e o impacto do que fez foi sentido. Tal como outras ajudou a criar o caminho para a liberdade. A diferença nesta história é que esta pessoa foi o pilar da minha vida, foi ela que me deu as bases para ajudar a construir o ser que sou hoje. Foi ela que me ensinou a importância da liberdade que tenho hoje, que posso agir, votar, falar o que penso sem medo! Lições que agora estou estou a passar `a minha filha.

O seu nome era Lourdes, nasceu em 1921 e vivia numa aldeia do interior de Portugal, a mais velha de 5 filhos e contra todas as probabilidades conseguiu estudar e ser professora.

Em busca de uma vida melhor, mudou-se para Lisboa e como já tinha experiência como professora, começou a trabalhar numa instituição militar, muito próxima de muitos que partilhavam a ideologia do “Estado Novo” e novamente contra todas as probabilidades tornou-se uma dos responsáveis pela logística de um dos principais armazéns.

Na década de 1950, ela também se tornou mãe e sentiu na pele a falta de apoio, não havia licença de maternidade nem creche, porque o que era esperado como mulher era que estivesse em casa. Mesmo sabendo que a resposta que iria obter seria sempre Não e que não era possível mudar, ela decidiu avançar na mesma e conversou com a direcção e apresentou o pedido para que as mulheres que trabalhavam naquela instituição militar tivessem direito a alguns dias de folga após o parto e a uma creche nas instalações do armazém. Não foi fácil, tanto a minha avó como o meu avô tiveram a polícia política - PIDE - a seguir os seus movimentos, e o meu avô foi “convidado” a visitar as instalações da PIDE, enquanto a minha avó durante um protesto pacífico foi agredida por um polícia a cavalo, enquanto segurava nas suas filhas pequenas. Depois de vários NÃOs, ela finalmente alcançou a luz no fim do túnel e recebeu a aprovação do conselho militar para o que havia solicitado.

Alguns anos depois chegamos à Revolução dos Cravos que aconteceu a 25 de Abril de 1974, pondo fim à ditadura em Portugal, e em 1975 Lourdes aceitou um novo desafio como avó trabalhadora, embora no papel fosse minha avó na realidade era mais a mãe. Ela deu-me estrutura, o pensamento que o céu não é o limite, que há todo um universo para explorar e principalmente ela deu-me Amor, aquele amor que não dá para explicar e a paixão de lutar pelo o que acredito!

Eu tinha quinze anos quando ela faleceu, o pior dia da minha vida! No seu funeral, apareceram antigos colegas, homens e mulheres. Tantas pessoas que nunca tinha conhecido antes. Fiquei muito admirada! E essa foi a minha luz naquele dia terrível. Nesse dia, as suas antigas colegas vieram falar comigo sobre a Lourdes sobre a sua força, as suas conquistas e o impacto que ela teve nas suas vidas! Eu senti-me muito grata e honrada por ser sua neta/filha. Entendi naquele dia a importância de todas as lições que ela tinha partilhado!

Vivemos atualmente no século XXI mas temos muitos motivos para continuar a celebrar o Dia Internacional da Mulher. Este dia é um momento para refletir sobre os progressos que foram alcançados, para reivindicar mudanças, para celebrar actos de coragem e determinação de mulheres comuns, que desempenharam um papel extraordinário na história das suas comunidades, como a Lourdes que marcou a vida das suas /dos seus colegas, das suas filhas, a minha vida, da minha irmã, da minha filha e… agora as vossas!

Obrigada!


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Tania Marques

HR Leader