DevOps: o que tem a ver com cultura e como as pessoas trabalham juntas?

Nov 07, 2022 | min leitura
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Fulvio Polizel Parmejjani

Empresas do mundo todo que desejam se manter competitivas buscam, constantemente, adotar novos métodos para potencializar o desempenho dos times de criação de produtos digitais. Essa busca está resultando na substituição de processos tradicionais de desenvolvimento de software e gerenciamento de infraestrutura pelo famoso modelo DevOps.

Trata-se de uma combinação de filosofias culturais, práticas e ferramentas que aumentam a capacidade da companhia de distribuir aplicativos e serviços em alta velocidade. Com essa implementação, as equipes de desenvolvimento e de outras operações não ficam mais separadas; às vezes, até se tornam uma só.

Integração e entrega contínuas, microsserviços, infraestrutura como código, monitoramento e registro em log são elementos comuns dessa configuração que prioriza a otimização e o aperfeiçoamento de produtos em um ritmo mais rápido, assim como altos níveis de comunicação e colaboração.

Uma das iniciativas que atestam os benefícios dessa estrutura é a divulgação anual do relatório State of DevOps Report, hoje encabeçado pela Google, que, desde 2013, lança novos olhares sobre o assunto, orientando as organizações com poderosos insights a respeito de oportunidades e maneiras de superar obstáculos. 

O poder das 4 key metrics sobre a evolução das operações é esmiuçado nele, e a cada publicação o documento detalha tendências e movimentos desse mercado em constante evolução, além de fornecer novas reflexões. Em 2022, não seria diferente.
Neste ano, o levantamento foi além da análise de elementos previstos pela estrutura organizacional do sociólogo Ron Westrum e expandiu o entendimento de cultura corporativa. As novidades revelam que, mais do que a “simples” proposta de otimização de processos pautada por demandas, DevOps também fala sobre cultura e como as pessoas trabalham juntas.

Estrutura organizacional de Westrum - DevOps e pessoas

A estrutura organizacional de Westrum é uma tipologia que prevê três tipos de organização com base em características culturais, sendo elas: pathological (power-oriented), bureaucratic (rule-oriented) e generative (performance-oriented). 
Pesquisas norteadas por essa classificação revelam que profissionais em empresas com culturas que apresentam os melhores resultados em negócios são mais propensos a:

  • pertencer a equipes estáveis;
  • produzir documentação de maior qualidade; 
  • dedicar a maior parte do tempo às próprias tarefas, tendo engajamento em atuações que consideram significativas.

Por sua vez, as empresas de culturas generativas, orientadas por performance, destacam-se por:

  • alta cooperação;
  • treinamento comunicacional;
  • compartilhamento de responsabilidades;
  • incentivo a conciliação;
  • investigação de falhas;
  • implementação de novas ideias

Dada essa perspectiva, o State of DevOps Report 2022 resolveu se aprofundar em algumas questões diretamente ligadas às performances das equipes. Nesse caso, estas são impactadas por:

  • alta cooperação;
  • rotatividade;
  • modelo de trabalho; 
  • burnout; 
  • percepção do apoio das lideranças; 
  • representatividade.

Compreender as experiências de profissionais de uma companhia é parte fundamental do processo de melhoria da cultura e, portanto, da geração de resultados com DevOps. Analisamos com mais detalhes cada um dos agentes que impactam as performances das equipes. Veja-os a seguir.

Team churn (ou rotatividade)

Times que têm de lidar com mudanças constantes pela entrada e pela saída frequente de colegas que apresentam dificuldades de manter práticas essenciais à geração de documentação de qualidade, segundo o relatório da gigante das buscas.

Isso porque novos integrantes precisam de tempo para se alinhar aos processos, o que afeta negativamente a produtividade e o engajamento geral da equipe. Há também prejuízos associados ao desempenho de quem permanece para se adaptar a alterações em fluxos de trabalho e novas dinâmicas coletivas.

No State of DevOps Report 2022, pontua-se que é mais provável que as equipes estáveis, cujas composições não mudaram muito em 12 meses, existam em organizações de alto desempenho. Vale lembrar que o documento se baseia em entrevistas com dezenas de operações.

Work Ready:  Mundo do trabalho e as transformações

Empresas com modelos mais rígidos de trabalho são menos competitivas do que aquelas que oferecem maior flexibilidade a profissionais, revela o documento da Google. Altas performances estão associadas à garantia de liberdade de escolha entre regimes presenciais, remotos ou híbridos, o que resulta em benefícios diretos e tangíveis para as organizações.

Aliás, a flexibilidade é um dos princípios do work ready, ponto de vista da CI&T sobre o mundo do trabalho e as transformações. Destrinchamos essa perspectiva em um e-book que condensa pesquisas, vozes do mercado e opiniões de líderes da CI&T a respeito do tema (você tem acesso a esse material gratuitamente clicando aqui).

Burnout: O que as empresas podem fazer para evitar?

Culturas generativas estão associadas a menores taxas de burnout, um sentimento de pavor, apatia e cinismo no espectro do trabalho ligado a sérias condições físicas e psicológicas, portanto algo a ser combatido em organizações dada a conexão com menor satisfação e maior rotatividade.

A estabilidade dos times e a oferta de flexibilidade estão diretamente ligadas à redução do burnout e à maior probabilidade de profissionais recomendarem as empresas em que trabalham a outros, segundo o State of DevOps Report 2022.

Em outras palavras, além de impactar positivamente a qualidade de vida das equipes, tais medidas representam diferenciais para a manutenção de times e a atração de talentos. A percepção de apoio vindo das lideranças também faz parte dessa equação.

Percepção do apoio das lideranças

A percepção do apoio das lideranças diz respeito à expectativa de suporte a profissionais promovida por líderes. Empresas de alto desempenho apresentam boas taxas nessa questão, e as equipes têm uma visão positiva em relação às companhias.
 
Por exemplo, os times dessas empresas preveem menor probabilidade de ocorrências de violação de segurança ou a interrupção completa das operações no período de 12 meses (que é o tempo de avaliação do relatório da Google). 

Além disso, essas equipes são menos propensas a sentir a necessidade de mudanças para a otimização dos resultados dos negócios.

Representatividade no mundo corporativo

Por fim, o direcionamento de esforços à representatividade, assim como à criação de ambientes inclusivos e saudáveis é de grande importância em todas as operações.

Isso porque resultados das avaliações do State of DevOps Report 2022 mostraram que profissionais de grupos sub-representados relataram níveis mais altos de burnout em comparação com aqueles que não pertencem a essas categorias.

E mais: essas pessoas foram as que mais disseram gastar tempo em trabalho não planejado, independentemente de apresentar alto ou baixo desempenho. Dessa forma, cabe às lideranças das organizações distribuir de forma justa as tarefas entre os membros das equipes, equilibrando cargas de atribuições.

Estrutura organizacional - DevOps

Nunca é demais lembrar que as ações mais eficazes para a conquista da eficiência digital dependem diretamente do contexto em que se aplicam, o qual varia de uma empresa para outra. 

De todo modo, cultura corporativa planejada e flexibilidade levam a desempenho organizacional aprimorado; porém, obstáculos como alta rotatividade e altas taxas de burnout prejudicam a evolução dos negócios.

Melhorias relacionadas a estruturas organizacionais são premissas do DevOps, mas não podemos nos esquecer, nunca, de que são humanos que as possibilitam — é claro, apoiados por infraestruturas mais adequadas. Portanto, devemos observar atentamente cada indivíduo.

Repetindo, DevOps também é sobre como as pessoas trabalham juntas. Então, é preciso reforçar e compartilhar essa ideia.


Fulvio Polizel Parmejjani

Fulvio Polizel Parmejjani

Head of Technology, CI&T