O sistema financeiro rumo a 2026: o que muda quando infraestrutura, dados e sociedade convergem

Jan 14, 2026 | min leitura
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Leandro Duran

O sistema financeiro brasileiro vive uma combinação rara: infraestrutura pública avançada (Pix, Open Finance, novos projetos, como o Tesouro Direto 24/7), um regulador com agenda clara de inovação e um cliente cada vez mais digital. Em 2026, essa combinação deixa de ser apenas “tema de evento” e passa a redesenhar, de fato, como o dinheiro, o crédito e os investimentos circulam no país.

Mudanças regulatórias, o surgimento de tecnologias emergentes e alterações no comportamento de consumo provocaram transformações radicais no mercado de serviços financeiros nos últimos anos.

Com isso em vista, Leandro Duran, Head of Digital Strategy da CI&T, traz reflexões sobre como essas forças estão convergindo para ditar o futuro do setor em 2026.

Essa tríade ampara estratégias bem-sucedidas porque a governança define um norte claro e “São tecnologias e situações que já vinham acontecendo e que vão continuar, mas com outros vieses”, afirma Duran.

Segundo o especialista, essas transformações se organizam em três grandes direções: infraestrutura e regulação, dados e Inteligência Artificial, e uma terceira relacionada à evolução dos modelos de negócio e às dinâmicas da sociedade.


1. Infraestrutura e regulação - as artérias do Sistema Financeiro

Boa parte do que impulsionará a próxima onda de inovação financeira no Brasil não nasce na interface com o cliente, mas nas camadas mais profundas do sistema.

Duran explica que “a infraestrutura tecnológica e regulatória permite que novos produtos surjam, escalem e se tornem confiáveis”. Nessas bases, quatro movimentos se destacam:

  • PIX

Lançado como uma solução de pagamentos instantâneos, o Pix rapidamente se tornou o principal meio de transações no Brasil e, agora, se prepara para se consolidar como uma infraestrutura do sistema financeiro brasileiro. 

Funcionalidades como o Pix Automático devem viabilizar cobranças recorrentes, como assinaturas e mensalidades, sem a dependência de boletos; já as iniciativas como Pix Parcelado e Pix em Garantia apontam para um deslocamento relevante no mercado de crédito, antes concentrado nos cartões.

“O Pix deixa de ser apenas um meio de transação e passa a operar como plataforma de cobrança recorrente, além de servir de infraestrutura transversal para o governo”, afirma o especialista.

Um exemplo na esfera governamental, citada por Duran, é o  uso Pix como base de liquidação para títulos públicos no projeto da nova plataforma do Tesouro Direto 24x7 – iniciativa que conta com o apoio da CI&T, além da facilitação de arrecadação de impostos e pagamentos de benefícios sociais.

  • Open Finance

Após cinco anos de implementação, o Open Finance entra em uma fase menos normativa e mais estratégica. Com a inclusão dos bancos S3 e S4 e uma governança mais madura, a agenda futura inclui a portabilidade de crédito, salário e investimentos, além de avanços para pessoas jurídicas.

O Open Finance tende a sair do “botão escondido no app” para virar a camada que alimenta praticamente todas as decisões relevantes de crédito, risco e relacionamento ,alimentando scores enriquecidos, ofertas contextuais e uma visão 360° do relacionamento com o cliente, tudo isso permitindo também a integração com ecossistemas não-financeiros”, explica.

  • Tokenização

Embora o piloto do Drex, baseado em blockchain, tenha sido interrompido, a agenda de tokenização segue viva — e talvez mais pragmática. Os aprendizados sobre dinheiro programável e contratos inteligentes agora se direcionam a modelos mais simples e interoperáveis.

Leandro explica que “a meta é permitir que ativos reais, como imóveis, recebíveis e títulos, circulem digitalmente, com liquidação em moeda emitida pelo Banco Central e integração nativa com Pix e Open Finance”. 

O ponto central é que o tema “cripto” deixa de ser uma discussão de nicho e passa a influenciar diretamente a infraestrutura de pagamentos, câmbio e investimentos. Para bancos e fintechs, isso abre espaço para novos produtos em cima de ativos digitais, mas com o olhar do regulador muito mais próximo.

Agora, sob supervisão direta do Banco Central e com definições claras quanto ao  tratamento de stablecoins como operações de câmbio, bancos e fintechs ganharam segurança jurídica para estruturar produtos com esses ativos.

"Com menor risco sistêmico, as cripto saíram da margem e passaram a integrar o centro do sistema financeiro."


2. Dados, Inteligência Artificial e Arquitetura - o cérebro do sistema em tempo real

Se a infraestrutura e a regulação garantem as bases do sistema, é a capacidade de interpretar dados e decidir em tempo real que define a inteligência das instituições financeiras

Não por acaso, o uso de Inteligência Artificial já entrou na agenda de acompanhamento do Banco Central. IA Generativa, governança de modelos e atualização de arquitetura deixaram de ser um assunto dos times de TI internos e começam a ser temas supervisionados.

  • IA Generativa

A Inteligência Artificial já é parte do cotidiano do setor financeiro, mas um movimento que vai se acentuar em 2026 está relacionado à IA Generativa.

No curto prazo, o impacto mais consistente acontece no backoffice: leitura e síntese de normas, análise de impacto regulatório, automação de relatórios, apoio a times de risco e compliance ganham escala e reduzem fricções operacionais.

Na sequência, a tecnologia avança para copilotos de equipes de relacionamento que ajudam especialistas no atendimento aos clientes.

“Já vimos isso começar a acontecer e, de agora em diante, será mais forte ver essa tecnologia avançando na interface com o cliente, por meio de assistentes financeiros conversacionais”, afirma Duran.

Nessa nova fase, usuários passam a ter contato direto com soluções de GenAI, que explicam produtos, comparam opções de crédito e investimentos, e educam o cliente em tempo real, com linguagem natural.

Quando combinados ao histórico do cliente e aos dados do Open Finance, esses agentes deixam de ser genéricos e passam a gerar valor real, proporcionando uma experiência aprimorada.

  • Arquitetura moderna

A promessa da IA e dos novos modelos digitais esbarra, com frequência, em uma limitação conhecida: cores bancários legados, monolíticos e orientados a processamento em lote. A tendência é que a modernização da arquitetura deixe de ser um projeto de eficiência e passe a ser um habilitador direto de negócio.

O movimento para 2026 vai em direção a arquiteturas cloud-native, organizadas por domínios de negócio, expostas por meio de APIs padronizadas e sustentadas por microsserviços e eventos.

É esse desenho que viabiliza operações contínuas, como a integração com Open Finance e modelos de Banking as a Service, nos quais serviços financeiros se tornam componentes reutilizáveis em jornadas de terceiros.

  • Data & Analytics

Com a abundância de dados, o desafio migra da posse para a capacidade de orquestração, rastreabilidade e governança.

Órgãos reguladores já exigem decisões de risco e de fraude em tempo real, como no Mecanismo Especial de Devolução do Pix, que demanda integração direta com soluções conectadas ao Banco Central.

“Já estamos vendo limites de crédito, ofertas e preços ajustados dinamicamente, sem violar consentimentos ou a LGPD. Ou seja, trabalhar bem os dados não é mais um diferencial competitivo, e sim um requisito regulatório”, explica.

Em resumo: a vantagem competitiva deixa de ser “quem tem mais dados” e passa a ser quem consegue tomar as melhores decisões com esses dados, de forma confiável e transparente


3. Modelos de negócio e sociedade: onde a inovação gera valor

À medida que a infraestrutura e a inteligência de dados amadurecem, a forma como os serviços financeiros se conectam à vida real também se transforma. 

Para 2026, o valor deixa de estar no produto financeiro em si e passa a surgir da integração entre finanças, consumo e impacto social.

  • Embedded finance

Para Leandro, os serviços financeiros tendem a desaparecer da interface e operar de forma invisível nas jornadas do dia a dia.

Em modelos de Banking as a Service, bancos e fintechs atuam como motores por trás de plataformas de varejo, saúde, educação e mobilidade. A transação financeira ocorre no fluxo principal — comprar, estudar, se deslocar — com menos fricção e maior relevância.

“É a materialização de um fluxo completo, em que o serviço financeiro aparece na hora certa dentro do fluxo principal”, diz.

  • ESG e impacto socioambiental

Com a crescente mensuração dos impactos de ESG, companhias passaram a falar menos de reputação e mais de propósito concretizado

Leandro afirma que “vamos começar a ver cada vez mais linhas de financiamento atreladas a metas ambientais e sociais, com retorno claro para a sociedade”. Segundo ele, isso se traduz na expansão de produtos de investimento como fundos e títulos alinhados a taxonomias verdes e de transição energética, além de instrumentos como créditos de carbono, entre outros.

O próprio acesso ao capital passa a exigir evidências de práticas sustentáveis, demandando mecanismos de rastreabilidade da cadeia produtiva das empresas e dados comportamentais para viabilizar créditos de impacto.

Do ponto de vista social, fluxos enxutos, linguagem com IA Generativa livre de “financês” e educação financeira integrada à jornada viabilizam uma inclusão financeira orientada por tecnologia, com produtos mais simples e adequados para o momento de vida de cada pessoa. 

Em um sistema financeiro 24/7, ser relevante não é apenas estar disponível o tempo todo – é usar essa disponibilidade para gerar impacto positivo, reduzindo assimetrias de informação e ampliando a autonomia das pessoas.

“Estamos chegando em 2026 com infraestrutura pública avançada, regulação voltada para o futuro e uma sociedade cada vez mais digital. Quem conseguir orquestrar tudo isso, adaptar seu core e escalar o uso das novas tecnologias vai capturar oportunidades e ser a liderança de inovação, não apenas um seguidor”, conclui Duran. 


Leandro Duran

Leandro Duran

Head of Digital Strategy, CI&T