Por que olho sempre para o futuro (e sugiro a você o mesmo)?

Out 17, 2022 | min leitura
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Renata Mello Feltrin

Hoje, quero compartilhar com você algumas reflexões sobre o amanhã, algo ao qual me dedico e sobre o qual eu falo constantemente há algum tempo. Veja, o foco de meu dia a dia é pensar em estratégias para que elas conectem inovação, tecnologia e negócios a fim de endereçar futuro de algumas das marcas mais valiosas do mundo e evoluí-las. Além disso, tenho 2 filhas (uma de 12 e outra de 9 anos). Aprendo muito com elas e penso muito no futuro delas.

Entre tantos ensinamentos que a convivência com ambas já me gerou, a necessidade de me colocar em uma posição de humildade profissional é uma das mais valiosas. Entenda: sou geração X (1965-1980) em um mundo sendo pensado e evoluído para a geração Z (1997-2010) e até mesmo para a geração Alpha (que nasceu depois de 2010). 

Em outras palavras, muito do que procuro pensar e construir hoje (seja no trabalho, seja em casa) não dizem respeito a mim nem sequer ao que aprendi até aqui. Lembro-me disso o tempo todo porque, se eu quiser continuar pensando em soluções relevantes, tenho que, todos os dias, renunciar a uma ideia antiga e aprender a ler o mundo de uma forma nova.

Olho sempre para o futuro e isso significa olhar atentamente para as gerações que estão remodelando o mercado agora. Nesse exercício, considero o mundo, o trabalho, o consumidor e os negócios - e são esses os tópicos que irei abordar a seguir.

"That world is gone"

Larry Fink é cofundador e diretor-executivo (CEO) da BlackRock, a maior gestora de investimentos do mundo, com US$ 10 trilhões em ativos sob seu gerenciamento. Ele já foi considerado um dos "Melhores Líderes do Mundo" pela revista Fortune e colocado 15 vezes consecutivas pela Barron’s como um dos "Melhores CEOs do Mundo".

Todos os anos, Fink escreve uma carta aos CEOs das empresas em que investe, e essas cartas ficaram famosas pela influência que ele exerce no mercado de capitais mundial. Da carta de 2022, o menor parágrafo foi o que mais me impactou.

Em destaque e com apenas quatro palavras, esse parágrafo dizia: "That world is gone" ("Aquele mundo já era", em tradução livre). 

Depois de dois anos do surgimento da pandemia de covid-19, que transformou em escala o comportamento da população mundial, definitivamente os modelos de trabalho foram redefinidos e a tecnologia como alavanca das novas relações humanas e de negócio foi potencializada; então, mais do que nunca precisamos entender de forma acelerada que tudo mudou e muda o tempo todo.

Fink resume o que aconteceu em quatro palavras: "That world is gone". Felizmente, um mundo novo e novos imperativos rapidamente tomaram lugar do que já não faz mais sentido.

That work is gone

As relações de trabalho como a gente conhecia também já eram. Embora muita gente — em geral, baby boomers (1946-1964), geração X e Y — insista em dizer que "voltamos aos velhos tempos", precisamos estar atentos à ações voltadas às gerações que estão remodelando o mercado agora.

Não posso pensar somente em mim ou em você, caso tenha nascido antes de 1997; preciso pensar no futuro. Precisamos pensar no futuro. E, para o mundo atual, os 6 novos pilares do trabalho muito claros já aparecem:

  • descentralização — os talentos estão por toda parte, e agora é possível acessá-los em qualquer lugar do mundo;
  • agilidade — as realidades nunca se transformaram tão rápido e nunca aprendemos de modo tão acelerado a nos adaptar e evoluir;
  • hibridez — mais do que in person e/ou online, é importante saber quando aplicar tais modalidades, dado que a intenção da escolha e o resultado dela são a chave;
  • flexibilidade — esqueça aquela imagem de uma pessoa na praia bebendo um martini enquanto digita no computador, pois as necessidades e os desejos de cada um tanto na vida quanto na carreira importam, e somos plurais, portanto um modelo único em que todos têm de se adequar não vai mais funcionar;
  • autonomia — é preciso dar espaço para que as pessoas possam agir gerando os próprios impactos a partir das potencialidades que carregam;
  • love-based — é permitir que as pessoas trabalhem com o que amam, e isso inclui os indivíduos que elas amam e em quais se inspiram, uma vez que somente quando as pessoas combinam o que amam com suas missões em empresas é que se alcança todo o potencial profissional.

Como contexto para tudo isso, diversidade é fundamental, pois é praticamente impossível nos engajarmos verdadeiramente quando não reconhecemos quem somos entre pares e lideranças.

That customer is gone

Se nós, eu e você, mudamos (ou em grande maioria estamos mudando) e o mundo do trabalho mudou, nós -  novos consumidores -  nos comportamos e consumimos de acordo com novos pilares. Afinal, o público também mudou, então é preciso ir muito além de transacionar produtos e serviços, é preciso desenvolver relação, e essa relação no novo mundo deve estar baseada em alguns pilares chaves:

  • conveniência;
  • sustentabilidade; 
  • ética;
  • inclusão;
  • personalização; 
  • conexão emocional.

É preciso gerar valor para ser relevante ao consumidor. Quem detém a relação com o consumidor (relação que é cada vez mais digital) retém o emocional e os dados; assim, entende melhor e evolui o que é conveniência para a audiência.

That business is gone

Simon Sinek publicou em 2019: "Uma empresa construída para ser estável não está preparada para o imprevisível; para a nova tecnologia, o novo concorrente, a mudança no mercado ou eventos globais capazes de, em um instante, destruir qualquer estratégia".

Talvez pudéssemos achar, na época, que Sinek estava exagerando, mas hoje cada um de nós sabe na pele que that world, onde os negócios eram feitos para serem estáveis, is gone.

Hoje, negócios precisam evoluir a ponto de serem capazes de lidar com o imprevisível e se transformar, o tempo todo, para melhor.

Mas como fazer isso? Não temos todas as respostas, mas temos insights. Já é possível decodificar três caminhos importantes para liderar no mundo atual, veja-os a seguir.

  • As companhias estão mais parecidas com as pessoas do que as pessoas com as companhias onde elas trabalham.
  • Ser flexível é evoluir para ser um lugar onde as pessoas têm espaço real para serem quem são e, a partir disso, transformarem as próprias companhias em hubs de negócios mais prontos para o imponderável, venha o que vier. Autonomia não é algo que damos ou recebemos, e sim que exercemos. Dê espaço.
  • O valor da liderança está na orquestração de talentos e ideias em mover para a frente com pragmatismo e sensibilidade os objetivos e as agendas mais importantes que direcionam uma visão clara de futuro, unindo todo mundo de forma construtiva, coletiva e conectada.

O mundo novo exige pensamento infinito. Lideranças mais aptas não lideram para vencer, e sim para continuar atuando em um jogo que realmente valha a pena não só para nós e nossos negócios isolados, mas para uma visão muito maior de ecossistema de negócios e sociedade.

Isso quer dizer que as organizações mais prontas para o futuro são aquelas nas quais as lideranças conduzem os negócios a continuarem sobrevivendo a quem estiver à frente deles.

This world is here

Embora muito tenha mudado, continua avançando quem aprende e reaprende a liderar. Isso vale para pais, pessoas, empresas e governos. Neste novo e excitante mundo, cada um de nós tem uma das mais importantes escolhas: liderar ou ser liderado. 

Afinal, this world is here. Eu, você, minhas filhas e nossos familiares, amigos, colegas, consumidores e negócios fazemos parte dele até que seja outro, pois aí já não seremos mais os mesmos; teremos aprendido muito mais e seremos ainda melhores.

Por fim, faço um convite: vamos continuar, juntos, olhando para o amanhã, desapegando de um conceito ultrapassado e aprendendo uma coisa nova - inclusive com as gerações 2 ou 3 casas depois da nossa.


Renata Mello Feltrin CI&T

Renata Mello Feltrin

Diretora Executiva, CI&T