Cartas de uma jornada 30 anos

DÚVIDA

Por Mars Cyrillo

Trinta anos. Três décadas moldadas não apenas por marcos, mas pelo ritmo quieto e persistente do tornar-se.

Quando perguntaram qual emoção me acompanhou nessa jornada, uma palavra chegou sem convite, mas inegavelmente presente: dúvida.

Minha memória volta a 2008, a um corredor no prédio 23B em Campinas, onde o futuro chegou não como certeza, mas como um convite inquietante: “Vai para os Estados Unidos. Nos ajuda a construir a CI&T lá.” Na época, a presença da CI&T na América do Norte ainda não era realidade — era um esboço na beira da ambição, rabiscado em esperança e audácia.

E sim, havia dúvida. Não do tipo delicado e momentâneo, mas uma presença pesada e implacável. Poderíamos nós, uma empresa brasileira nascida no calor de Campinas, abrir espaço entre titãs numa terra onde tudo parecia vasto e estranho? Poderíamos nós, com nosso inglês lírico e mentes ágeis, ressoar num mercado que frequentemente preferia precisão à poesia?


Essa não era só uma questão profissional. Era profundamente humana. Deixar o conhecido pelo desconhecido exige não apenas coragem, mas disposição de ser desfeito e refeito. Não íamos pra batalha com estilingue — carregávamos princípios Lean, práticas ágeis e uma cultura costurada por empatia e engenhosidade. Mas seria suficiente? Ou, como a dúvida insistia, seria isso apenas uma ilusão lindamente construída?
Estudei a paisagem como quem se prepara pro exílio — ansioso, mas incerto. Cada nome estabelecido se erguia como montanha antiga. O abismo cultural se escancarava. E a dúvida, sempre eloquente, sussurrava sua frase favorita: “Quem você pensa que é?”
E ainda assim, mesmo nesse barulho, uma brasa teimosa brilhava. Não certeza, mas fé — no brilho da nossa gente, na diferença do nosso método, no calor e sagacidade do nosso jeito. Essa brasa acendeu um caminho, e eu segui.


Aterrissei nos EUA não com confiança, mas com convicção. Os primeiros dias entregaram todos os desafios prometidos pela minha dúvida: gafes de comunicação, tropeços culturais, mercados lentos pra confiar. E ainda assim, seguimos. Cada pequena vitória — um projeto entregue, um cliente que voltava, uma nova contratação prosperando — se tornou ato silencioso de resistência contra aquela velha voz da incerteza.
Então vieram os avanços. Fizemos parceria com a Johnson & Johnson, criamos apps pra Coca-Cola, e, aos poucos, não éramos só presentes — éramos necessários. Escritórios cresceram por Atlanta, Nova Jersey, Nova York e Oakland. Comrade e Ntersol se juntaram à nossa história. Nosso valor, antes questionado, agora era impossível de ignorar.
Hoje, em 2025, a América do Norte não é sonho distante — é pilar da força global da CI&T. Nossos parceiros — PepsiCo, Domino’s, J&J, Coca-Cola — são gigantes da indústria. Tocamos o sino na NYSE. Gigantes como Google Cloud, Microsoft Azure e AWS caminham ao nosso lado como pares.


Olhando pra trás, a dúvida não foi inimiga. Foi companheira, a cética necessária que afiou nossa intenção e clarificou nosso propósito. A dúvida não paralisa quando abraçada — ela purifica. Exige que saltemos não cegamente, mas corajosamente, e de olhos bem abertos.
Transformamos dúvida em impulso, não sozinhos, mas juntos — com cada CI&Ter que ousou acreditar, cada cliente que nos deu uma chance e cada momento que escolhemos escutar não só nossos medos, mas nossos sonhos.


Ao honrar o legado de 30 anos da CI&T, não vamos banir nossas dúvidas. Vamos cumprimentá-las, questioná-las e deixar que nos refinem. Ao fazer isso, honramos não só a empresa que construímos — mas a coragem que foi precisa pra construí-la.


Abra uma carta. Faça uma pausa. 30 ANOS DE CI&T
EM CARTAS