Cartas de uma jornada 30 anos

RAIVA

Por Bob Wollheim

Muito se fala sobre o que nos move. Curiosidade, ambição, inteligência, criatividade, colaboração, propósito. Tudo verdade. Mas há algo que raramente entra nessa lista (talvez por parecer rude ou difícil de admirar) e que me move todos os dias: a raiva.

Sim. Raiva.

Raiva diante do talento desperdiçado. Raiva de ideias brilhantes sepultadas em gavetas. Raiva quando a política interna sufoca a coragem. Raiva quando a burocracia asfixia a inovação. Raiva quando a vaidade paralisa o coletivo.

E tudo isso, sim, acontece nas empresas, até nas boas. Até na nossa.


Inclusive na nossa.

Mas a raiva, para mim, nunca foi destino. Foi ponto de partida. Ela me alerta. Me cutuca. Me desperta. Me empurra quando falta chão.

A parte mais difícil (e mais bonita) vem depois: o que eu faço com essa raiva. Porque transformá-la em ação exige presença. E coragem. E humildade. E parceria. Exige escuta. Exige persistência. Exige canalizar o incômodo em movimento, não em destruição.

Talvez por isso eu esteja aqui, querendo mais. Querendo melhor. Querendo diferente. Querendo justo.


Se eu não sentisse raiva, talvez tivesse me acomodado. Talvez tivesse virado só mais um executivo corporativo. Mas a raiva, essa danada, não me deixou aceitar o “é assim mesmo”. Deixou talvez alguns com raiva e, se você, que lê estas palavras, é um deles, nada como uma carta para explicar meus porquês. Mas ela não me deixou desistir.

Raiva de ver todos fazendo igual, e a gente ousar ser diferente. Foi assim que nasceu, recentemente, o Feels Like Magic. Porque, no fim, não é mágica: é lógica, é trabalho, é uma matemática boa pra caramba.

Foi a raiva que me fez questionar. Testar. Brigar. Criar. Ela me fez viver esses 30 anos não como passageiro, mas como quem segurou o volante (às vezes com a mão trêmula, mas com a vontade firme de seguir).

Claro: raiva sozinha não sustenta. Seria destrutiva. Ela precisa de amor. De visão. De generosidade. Precisa ser lapidada. É energia bruta. Fogo criativo. E me orgulho de tê-la deixado viver em mim. De não ter pedido desculpas por senti-la. De ter transformado essa força em algo que constrói. Talvez tenha errado, mas sigo alerta.

Se a CI&T é o que é hoje, é porque houve quem sentiu raiva e fez dela movimento. Gente que olhou para o mundo, para os sistemas, para as regras, e disse: “assim não!”

E foi lá. E fez diferente.

Então, sim. 30 anos raivosos. E que venham mais 30, com mais inconformismo, mais coragem, mais vontade de mudar o que já não serve.

Porque, se a raiva nasce do amor ao que ainda pode ser… que ela nunca nos falte.


Abra uma carta. Faça uma pausa. 30 ANOS DE CI&T
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