Cartas de uma jornada 30 anos

SOLIDÃO

Por Vinicius Martinelli

A escritora Maya Angelou disse uma vez: “A saudade de casa vive em todos nós, o lugar seguro onde podemos ir como somos e não ser questionados.”

Para mim, a solidão muitas vezes parece exatamente isso: não a ausência de pessoas, mas a ausência de um lugar seguro, justo no momento em que você mais precisa. E ela existe.

Nos primeiros anos de trabalho, não reconhecia a solidão. O ritmo de crescimento, a empolgação dos projetos, a colaboração constante me faziam acreditar que liderança era sempre espaço compartilhado.

Com o tempo, descobri outro lado: as conversas terminam, as salas esvaziam, e sobra a decisão que ninguém mais pode carregar. Não é visível para os outros, mas pesa. Liderança tem horas silenciosas, intensas, sofridas e solitárias.

Solidão na liderança não é estar sozinho. É estar cercado de gente e, ainda assim, sentir o peso de perguntas que não dá para dividir. Medos que não cabem em reunião. Dilemas que continuam na cabeça depois que todos já foram embora. Olhares que esperam a sua resposta. Só a sua.

Lembro dos meus tempos na Argentina e no México, liderando projetos críticos. Eram experiências cheias de energia: novas culturas, novos desafios, novos olhares. Mas eu também estava longe da minha rede pessoal, navegando expectativas em um terreno desconhecido. Todo dia, mostrava confiança ao time enquanto, em silêncio solitário, lutava com a possibilidade de falhar. Esse é o paradoxo: somos cobrados a projetar certeza enquanto convivemos com incerteza. A nossa incerteza.

Já senti isso como sócio também. Quanto mais você escala a carreira, mais o trabalho muda — é menos operação e mais escolhas que moldam o futuro da empresa. Às vezes isso traz clareza. Outras, distância. Lembro de uma decisão estratégica que definiria nosso rumo por anos. O peso parecia todo meu. Até perceber que não era.

Havia equipes coletando dados, colegas questionando, líderes debatendo cenários. Eu podia segurar a caneta no fim, mas a tinta vinha de muitos. O peso não era só meu. Mas, ao mesmo tempo, era. Solidão.

A solidão tem valor. Ela corta o ruído. Obriga a ouvir a própria voz. A separar o urgente do importante. A equilibrar razão e intuição. Te convida a um choque de realidade e a reflexões mais profundas.

Ela também me tornou alguém mais intencional sobre conexão. Passei a buscar mentores e pares com quem pudesse ser inteiro, sem filtros. A cultivar relações além do negócio, porque são elas que sustentam tudo. Aprendi a importância de circular, perguntar de verdade e escutar sem pressa. Não só como líder, mas como colega; não só como profissional, mas como pessoa.

Solidão, para mim, é sobre empatia. Sentir-se sozinho no topo me deixou mais atento a quem pode sentir o mesmo em outros níveis. Por isso, trabalho para criar espaços de confiança, onde se pode falar das dificuldades sem medo de julgamento. Cultura não se constrói só nas vitórias, mas, principalmente, nesses silêncios em que alguém descobre: não estou só.

E há algo libertador quando a gente dá nome à solidão. No momento em que a reconhecemos, ela perde parte do poder destruidor. Já vivi isso: uma conversa honesta basta para trazer clareza, apoio, até alívio. Lembra que, embora você assine a decisão, nunca assina o caminho sozinho. Você assina com o todo, com a experiência, com a colaboração. Mas, claro, no fim, a assinatura é a sua.

Ao celebrar os 30 anos da CI&T, carrego essa certeza: a liderança terá sempre seus momentos de solidão. Que bom, no final. Eles vão afiar a visão, ampliar a empatia e fortalecer a determinação.

E quando olhamos para trás, a maior satisfação não é ter vencido sozinho — mas perceber quantos caminharam conosco, até nos trechos em que acreditávamos estar sós, mesmo que estivéssemos!


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