Os bancos não podem deixar de apoiar as pequenas e médias empresas de hoje

Jun 14, 2021 | min read
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Leonardo Mattiazzi

Ter uma pequena ou média empresa nunca é fácil. O instituto de estatísticas do trabalho dos Estados Unidos, Bureau of Labor Statistics, afirma que 1 em cada 5 novas empresas abandonam a atividade nos dois primeiros anos. Com os efeitos da COVID-19 a serem sentidos no mundo inteiro, tornou-se ainda mais importante manter uma boa gestão financeira e tomar decisões operacionais acertadas, não se prevendo a reabertura de mais de metade (60%) das empresas que fecharam durante a pandemia.

Estamos, portanto, perante um grande dilema se considerarmos que os bancos não estão à altura dos acontecimentos, nem a dar os apoios que as pequenas e médias empresas necessitam, para além do programa de empréstimos para apoio ao pagamento de salários implementado pelo governo dos EUA (chamados de empréstimos PPP). Por outro lado, os primeiros dados do estudo da CI&T revelam que as PME estão a recorrer a diversas opções das fintechs para satisfazerem as suas necessidades, recorrendo inclusivamente a serviços que estão tipicamente associados à banca. Os líderes destas empresas dizem sentir-se bem apoiados e manterem uma boa comunicação com os seus bancos, mas se os bancos se integrassem mais nestes processos poderiam melhorar a oferta de apoio financeiro personalizado. Assim, as empresas teriam muito mais estabilidade e conseguiriam crescer e sobreviver à crise — não só a esta como também a outros tempos difíceis que surgem invariavelmente ao longo da vida de uma pequena empresa.

Porque é que os bancos e as PME estão tão desligados entre si?

De acordo com os nossos estudos, de um modo geral, os líderes das PME não veem os bancos como instituições que podem ajudar a gerir o seu negócio. Talvez seja assim porque apesar de existirem alguns produtos e serviços para as PME, os bancos ainda não conseguiram apresentar um percurso integral concebido inteiramente para pequenas e médias empresas. Ao invés, a sua abordagem ao setor comercial foi praticamente igual à que usaram para o setor da banca de retalho. Não se esforçaram o suficiente para compreender as necessidades das empresas ou perceber como ter um papel mais relevante na vida de uma empresa.

Qualquer banco pode optar por se manter circunscrito à sua função tradicional de receber depósitos e conceder crédito ou transformar-se num pilar de boa saúde financeira das empresas, abordagem esta que requer uma atitude muito diferente e muito mais proativa em relação aos serviços prestados. Há bons exemplos dos quais podemos tirar conclusões, como é o caso da Alibaba e Ant Financial. A Alibaba tem recursos e capacidades completamente diferentes dos de um banco, obviamente, mas mesmo assim, se os bancos aceitaram de forma passiva a sua inépcia na aproximação ao cliente, renunciado ao uso de capacidades que vão além das expectativas mais elementares, esta lacuna acabará por ser preenchida pelas fintechs e pelas grandes empresas.

Esta ausência de uma boa ligação e de progresso tecnológico pode estar a contribuir para a visão que os empreendedores modernos têm de que os bancos não são capazes de prestar ajuda. Além disso, os bancos têm ainda que deslindar todas as questões regulamentares, cadastrais e jurídicas que podem ter elevada complexidade no caso de empresas de diferentes regiões ou países. Os bancos devem também começar a pensar em limitar as despesas gerais de conta quando introduzem novos serviços e imaginar novas formas de rentabilizar os mesmos, isto porque os aumentos gerais de encargos só têm vindo a reforçar a imagem negativa dos bancos perante as PME, e devem determinar a rentabilidade de vários casos de diferentes empresas/setores. A quantidade e a localização de sucursais de um banco serão certamente importantes para esta equação, mas também para a proximidade com o cliente. A melhor resposta que os bancos podem dar para se conseguirem envolver e trabalhar com clientes comerciais consiste em segmentar as PME e perceber qual a melhor forma de potencializar cada tipo de recurso.

A oportunidade incrível que os bancos devem aproveitar já

Há que admitir que não é fácil satisfazer as necessidades das pequenas e médias empresas. Existem grandes diferenças entre os setores e os objetivos operacionais. Há, por exemplo, empresas que precisam de realizar um grande número de transações internacionais online, enquanto que outras realizam a maior parte das vendas de forma presencial e local.

Mas os esforços que os bancos terão de realizar para chegar a uma solução valem a pena. As pequenas e médias empresas representam atualmente o impressionante montante de 6 biliões de dólares no PIB. Consoante aquilo que a banca considera ser uma “média empresa”, este valor pode ser ainda superior. Se os bancos conseguirem agarrar estes clientes, podem ganhar milhões ou milhares de milhões, mesmo que algumas destas empresas acabem por fechar portas. E como algumas das empresas com as quais os bancos trabalham irão crescer, a tendência é um aumento de rentabilidade à medida que os pequenos clientes se desenvolvem. Portanto, existe aqui uma grande oportunidade de lucro para os bancos se estes conseguirem estabelecer boas relações desde o primeiro momento.

Contudo, o primeiro passo nessas relações terá que ser dado pelos bancos, que devem compreender e criar empatia com os clientes, principalmente as pequenas e médias empresas. A banca deve usar a sua experiência com o setor particular para mostrar interesse e compreender a maneira como as PME funcionam, as suas preferências e o que querem ver alterado no seu funcionamento. Este processo tanto envolve detalhes técnicos (compreender a infraestrutura da empresa, por exemplo) como culturais ou particulares (optar pela interação face a face ao invés de realizar uma transação ou tarefa online).

Assim que o banco obtém estes dados e deles retira impressões, pode utilizá-las para criar soluções à medida das PME de diferentes segmentos. Os bancos têm a capacidade de oferecer estas soluções de forma independente, mas podem também criar parcerias mutuamente vantajosas e aproveitar o ecossistema existente das fintechs. Excelente exemplo disso mesmo é a Cross River, uma pequena instituição bancária de Nova Jérsia que se tornou no 4.º maior credor de empréstimos PPP durante a pandemia, apoiando mais de 100.000 empresas através de parcerias com diversas fintechs que deram origem aos empréstimos, como a Affirm, Betterment, Wealthfront, Intuit, Gusto, entre outras, e que já fazem parte do dia a dia dos proprietários de pequenas e médias empresas. O apoio prestado deve ter flexibilidade suficiente para crescer ao ritmo das PME, das suas vidas úteis e das novas realidades de mercado, independentemente da forma como é estruturado.

A COVID-19 está a obrigar-nos a todos a repensar o que fazemos e para quê, tanto ao nível pessoal como profissional. É neste contexto que tanto os bancos como os consumidores estão a fazer um balanço e a alterar comportamentos. Estão assim criadas as condições perfeitas para assumir novos riscos moderados, reestruturar e colaborar. Se os bancos agarrarem esta clara oportunidade com entusiasmo e bom planeamento, poderão ter um papel decisivo na capacidade do mundo para avançar para o futuro.

Tal como publicado pela Global Banking and Finance Review.

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Leonardo Mattiazzi CI&T

Leonardo Mattiazzi

EVP of Global Innovation, CI&T